segunda-feira, 23 de outubro de 2017

O mesmo tanto

Não vou mentir que eu 
Andei te procurando despistar, 
Saudade
Em vão tentando te esquecer
Mas eu passei só pra te ver, Saudade 
Coisa que não posso negar
Inda que eu me esquive desse teu olhar
Vigia

Eu preciso o mesmo 
Tanto de você.


Não é raro, desde sempre, não há biólogo que explique, a garça namoradeira saí às escondidas do luxuoso recinto do parque pra dividir o lixo da vida urbana com o seu malandro urubu - no meio do pitiú.

domingo, 22 de outubro de 2017

Vinicius, o grande poetinha

O Haver

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo:
— Perdoai! — eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe. 

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer balbuciar o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia de simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza 
Diante do cotidiano, ou essa súbita alegria
Ao ouvir na madrugada passos que se perdem sem memória...

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa 
Piedade de sua inútil poesia e sua força inútil.

Resta esse sentimento da infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa tola capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem de comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo esse desejo de servir, essa 
Contemporaneidade com o amanhã dos que não têm ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
E transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade 
De aceitá-la tal como é, e essa visão 
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta essa obstinação em não fugir do labirinto
Na busca desesperada de alguma porta quem sabe inexistente
E essa coragem indizível diante do Grande Medo
E ao mesmo tempo esse terrível medo de renascer dentro da treva.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem história
Resta essa pobreza intrínseca, esse orgulho, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do próprio reino.

Resta essa fidelidade à mulher e ao seu tormento
Esse abandono sem remissão à sua voragem insaciável
Resta esse eterno morrer na cruz de seus braços
E esse eterno ressuscitar para ser recrucificado.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, esse fascínio 
Pelo momento a vir, quando, emocionada
Ela virá me abrir a porta como uma velha amante
Sem saber que é a minha mais nova namorada



Vinicius sempre detestou a alcunha de "poetinha" , o grande poeta que não foi, o desdém dos seus fracassos. Quando em verdade foi maior que a própria poesia, o diminutivo pejorativo era pra que de alguma forma fosse contido num conceito, numa palavra, em si. Perguntado pelo Chico certa vez  sobre como gostaria de reencarnar numa próxima viagem, Vinicius foi categórico, não fazia questão, mas se voltasse queria ser exatamente igual, apenas com o pau um  pouquinho maior. 

sábado, 21 de outubro de 2017

Um tom de azul pra cada dia

Amor da sua cama - Felipe Araújo

E se eu despir minha alma
Será que ela também te excita?
As vezes o amor se disfarça embaixo dos lençóis, reflita

Tenho vontade de ir mais fundo
Mas não tenho certeza se ainda posso
Certeza eu tenho que posso ir além do que virar seus olhos

Além de transpirar seus poros
Além de arrancar sua roupa
Além de apresentar o caminho que você percorre com a sua boca
Mas ó: é só uma ideia boba, é só uma ideinha boba

Tudo bem
Se é pra você me usar o que que tem?
Só de tá com você fico bem
Posso não ser o amor da sua vida

Tudo bem 
Se é pra você me usar o que que tem? 
Tanto faz se você não me ama 
Posso não ser o amor da sua vida 
Mas eu sou o amor da sua cama 

Tudo bem 
Tudo bem

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

PEQUENAS DOSES DE REALIDADE

Hasanlu - o beijo de 2800 anos
A ti
não parece
demasiadamente
ordinária
a generalidade da morte
ante à cova rasa da vida
para encobrir
sentimentos
profundos?


-Hoje liguei pra você. Sem perceber fiz um pedido.
Mas ninguém atendeu.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

A pequena Dorothy e o grande Mágico de Oz


"Nesta vida,
pode-se aprender três coisas de uma criança:
estar sempre alegre,
nunca ficar inativo
e chorar com força por tudo o que se quer."



Um tom de azul pra cada dia


Viagem perdida

Você confia à fumaça
a ida da memória má
você confia ao copo
o esquecimento do que sempre será tormento

você confia à leitura
a distração
mas as palavras são apenas para os olhos
a atenção

você quer ir embora de você
como se você não lhe fosse
todos os destinos possíveis

a ida é sempre volta
a volta, sempre ida
é melhor que fique
é viagem perdida

aqui, na gente
ficar em casa é viajar
aqui e sempre
é lar, é lá

você quer ir embora de você
como se você não lhe fosse
todos os destinos possíveis

você não sabe o que é se perder
e não encontra uma saída
para um destino possível

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

ISMAEL NERY, meus amigos

POEMA (1931)
Estou com o olho no telescópio que está dentro da barriga aberta da cúpula. Observo a lua, a filha da lua, a neta da lua, toda a família da lua, menos o marido dela. Eu gosto da cor da lua mas acho incompleta a sua forma. A lua é uma mulher gorda, que parece magra, magríssima, abstrata. Eu gosto das mulheres abstratas que vêm ao mundo sem pai nem mãe nem irmãos, e que não nasceram em nenhum país nem tão pouco no mar. Gosto mais de ter uma mulher em pé na minha cabeça do que pendurada em meu pescoço. O meu pescoço, às vezes, não agüenta bem o peso da minha cabeça, porque ela está cheia de coisas que quase sempre eu não gosto. Tenho uma formidável atração pelo que detesto, inclusive eu mesmo. Ismael Nery: nunca consegui ouvir nem dizer este nome sem sentir uma comoção – mas não sei bem que espécie de comoção eu sinto ouvindo ou dizendo este nome. Há nomes também que me emocionam e me obrigam a inventar um físico para eles. Nunca vi ninguém que escapasse completamente a uma crítica minha – nem eu próprio. Terei que captar a minha sinceridade em alguém que não seja eu, e até muito pelo contrário – que seja bem diferente de mim. Preferiria olhar as mulheres de cabeça para baixo e suspenso por um fio de aço, do que de outra maneira qualquer. A desorganização das coisas não me agrada, também como a organização .Gostaria de ter um criado moral para arrumar o meu cérebro e consolar nas minhas ausências aqueles que moram comigo, de mim e para mim. O meu maior instinto é o da paternidade que aplico a tudo e a todos. A minha maior vontade era ser a sombra de tudo e de todos, afim de nascer e morrer com tudo e com todos e em todos os tempos. Não haverá um homem que me determine moral e fisicamente? Sou o gérmen de um Deus, toda a gente o é também.
...
A UMA MULHER (1932)
Eu queria ser o ar que te envolve
Desde o teu nascimento.
Eu queria ser o teu vestido que te esconde dos outros.
Eu queria ser tua camisa que te conhece em segredo,
Eu queria ser o leito onde te abandonas ao teu próprio frio.
Eu queria ser teu filho e teu amante.
Eu queria que fosses eu.
Eu queria ser teu amor e teu Deus.
Eu queria não existir.
...
CONFISSÃO (1933)
Não quero ser Deus por orgulho.
Eu tenho esta grande diferença de Satã.
Quero ser Deus por necessidade, por vocação.
Não me conformo nem com o espaço nem com o tempo,
Nem com o limite de coisa alguma.
Tenho fome e sede de tudo,
Implacável.
Crescente.
Talvez seja esta a minha diferença de Deus.
Que tem fome e sede de mim,
Implacável,
Crescente,
Eterna
— De mim que me desprezo e me acredito um nada.
...

INÉRCIA
O poeta quer se locomover.
Para que bonde, navio, avião e zeppelin
Se já te encontrei e estás comigo?!
Para que,
Se tu és para mim o universo inteiro?!
Para que,
Se estamos juntos da cabeça aos pés?!

Cine Jota


domingo, 8 de outubro de 2017

LÂNGUIDAS PROVOCAÇÕES



(Quando vão se cruzar?)

Lábios

Apenas o seu amor
Apenas a sua sombra
Apenas a sua voz
E minha alma
Apenas o seu amor
Apenas a sua sombra
Apenas a sua voz
E minha alma
Apenas seus lábios
[Romy Madley Croft]
Meu nome em seus lábios
Você está vestindo meus pulmões
Afogado em oxigênio
Agora você definiu o cenário
Bêbada em intimidade
Me dando um banho
[Romy Madley Croft]
Ooh
Eu não quero saber o caminho
Ooh
Eu não quero saber o caminho
[Trio medieval, Romy Madley Croft + Oliver Sim]
Apenas o seu amor
Eu só quero tudo
Apenas a sua sombra
Apenas a sua voz
Eu só quero tudo
E minha alma
Na minha cabeça, nas minhas veias
Na maneira como você dá e recebe
Da maneira que você pesa
No meu corpo, no meu cérebro
[Oliver Sim]
A química está destruindo um caso de duas, três vezes
Não há garantias
Trabalhando com as estações, pressionado contra o teto
Empurrando para baixo em mim
[Oliver Sim]
Ooh
Eu não quero saber o caminho
Ooh
Eu não quero saber o caminho
[Trio medieval, Romy Madley Croft + Oliver Sim]
Apenas o seu amor
Eu só quero tudo
Apenas a sua sombra
Apenas a sua voz
Eu só quero tudo
E minha alma
Na minha cabeça, nas minhas veias
Na maneira como você dar e receber
Da maneira que você pesa
No meu corpo, no meu cérebro
[Trio medieval, Oliver Sim]
Apenas seu pescoço
Apenas seus olhos
Apenas seu desejo
Apenas o seu amor e minha alma
Apenas o seu amor
Apenas a sua sombra
Apenas a sua voz
E minha alma
Apenas o seu amor
Apenas a sua sombra
Apenas a sua voz
E minha alma
Eu não quero saber o caminho 

sábado, 7 de outubro de 2017

Memórias de fatos inventados

De corpo e alma

A minh'alma inquieta descansa
Enquanto o corpo se agita
Quando o corpo enfim perece
A alma que o visita
E vem a vontade louca
De ter você por completo
Mesmo sabendo
Que eu sempre vou esperar por você
Não como a terra seca
Espera pela chuva fina
(Com candura)
Mas como a morte certa
Espera pela vida


quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Paradoxos Noturnos


"A ocasião faz o furto. O ladrão nasce feito"

O poeta de palavras de baixo calão

O silêncio é dos inocentes. A vida tem um barulho ensurdecedor. 




A morte descansa seus pés gelados em caprichosos calçados silenciosos. Por isso- as palavras - ele as fustiga, rasga, desfigura, as gasta, mantêm e tortura mentalmente, dia após dia, para que em todos os fins, durante suas noites de expiação vingativa e loucura, entre sujos suspiros, delírios e múrmuros, possa deitar-se sobre elas. Secretamente violá-las. Assim, as manterá cativas dentro de si, reféns da luxúria e nudez dos sonhos que esconde sob as penas vestigiais do seu travesseiro, escravas da concupiscência amoral dos sagrados segredos que rivalizam o espaço debaixo da sua cama. Amordaçadas consigo, amarradas a mim.

sábado, 30 de setembro de 2017

Loucos de Estimação (à nossa Loucura)

Poema da Amante

Eu te amo
Antes e depois de todos os acontecimentos,
Na profunda imensidade do vazio
E a cada lágrima dos meus pensamentos.
Eu te amo
Em todos os ventos que cantam,
Em todas as sombras que choram,
Na extensão infinita dos tempos
Até a região onde os silêncios moram.
Eu te amo
Em todas as transformações da vida,
Em todos os caminhos do medo,
Na angústia da vontade perdida
E na dor que se veste em segredo.
Eu te amo
Em tudo que estás presente,
No olhar dos astros que te alcançam
E em tudo que ainda estás ausente.
Eu te amo
Desde a criação das águas,
desde a ideia do fogo
E antes do primeiro riso e da primeira mágoa.
Eu te amo perdidamente
Desde a grande nebulosa
Até depois que o universo cair sobre mim
Suavemente.



quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Considerações da menina má (para meu Velho Safado)

"Por que é tão difícil aceitar que a festa acabou? (...)


Ah, deixe disso, você sabe que é o meu favorito
Diga-me é quente o suficiente pra você
Dentro de mim?"

domingo, 24 de setembro de 2017

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Paradoxos Noturnos

"Perdi-me muitas vezes pelo mar,
com o ouvido cheio de flores recém-cortadas,
com a língua cheia de amor e de agonia.
Muitas vezes perdi-me pelo mar,
como me perco no coração de alguns meninos.

Não há noite em que, ao dar um beijo,
não sinta o sorriso das pessoas sem rosto,
nem há ninguém que, ao tocar um recém-nascido,
olvide as imóveis caveiras de cavalo.

Porque as rosas buscam em frente
uma dura paisagem de osso
e as mãos do homem não têm mais sentido
que imitar as raízes sob a terra.

Como me perco no coração de alguns meninos,
perdi-me muitas vezes pelo mar.
Ignorante da água vou buscando
Sempre
Uma morte de luz que me consuma."


domingo, 10 de setembro de 2017

K.O.


Seu amor, me pegou
Cê bateu tão forte com o teu amor
Nocauteou, me tonteou
Veio à tona, fui à lona, foi K.O.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

"Regalos para el corazón"


O Velho Safado 

Sine qua non - não acaba quando termina ou Destino do Ateu

Ida e volta
Ao fim da linha
A gente ainda não cabe
Mas acaba 
No princípio do fim
Termina
Perto e longe do começo
Um pouco menos terreno
E quase
Mais aéreo
Sem saber
Onde realmente se finda
Dinamicamente inerte
No fundo de tudo
Anfíbio
No meio do nada
Subsolar
Captando estranhos sinais
Através de leituras
-nervuras de folhas outrora perdidas-
Deixando pedras iluminescentes pegadas
-Resquícios frios de velhas estrelas -
Reticências orbitando novos vazios
Montando guarda



sábado, 2 de setembro de 2017

O que queremos ser quando morrer

Limpe muito bem os pés
(quando sair)
Por onde for e por onde andar
Não existem pegadas deixadas pelo homem à frente

...

Com o tempo os pensamentos passam a ter seu próprio peso.  A motivação passa a ser tal qual a gravidade e um sujeito será apenas o que de fato é.

...

O que queremos ser quando morrer?

terça-feira, 29 de agosto de 2017

" Regalos para el príncipe"

Nuvem de Lágrimas
Há uma nuvem de lágrimas sobre meus olhos
Dizendo pra mim que você foi embora
E que não demora meu pranto rolar
Eu tenho feito de tudo pra me convencer
E provar que a vida é melhor sem você
Mas meu coração não se deixa enganar

Vivo inventando paixões pra fugir da saudade
Mas depois da cama a realidade
É só sua ausência doendo demais
Dá um vazio no peito, uma coisa ruim
O meu corpo querendo seu corpo em mim
Vou sobrevivendo num mundo sem paz
Ah...
Jeito triste de ter você
Longe dos olhos e dentro do meu coração
Me ensina a te esquecer
Ou venha logo e me tire dessa solidão

"Até um relógio quebrado está certo duas vezes por dia"

e quando acabou
eu chorei
quando vi você
em pedaços
o mundo não parou nenhuma vez


sábado, 26 de agosto de 2017

PARADOXOS NOTURNOS

Me encontre
Kings of Leon

Eu vejo você em um céu ocidental
Em uma melhor esta noite
Fora no escuro
Você sempre parece vir em minha direção
Venha e dê a sua forma
Fora nas estrelas
Eu realmente quero saber seu nome
Ver seu rosto, saber quem você é
Quem você é?

Como você me encontrou
Como você me encontrou
O que você está procurando
Você está procurando
Como você me encontrou
Como você me encontrou
Em cima nas sombras, pegando a minha carga

Eu estou esperando a fumaça a subir
De trás de seus olhos
Pra ir
Siga-me para a vida selvagem com um sorriso torcido
Eu não posso escapar
Agora eu tenho você do meu lado
Toda a minha vida, dia após dia
Da sepultura

Como você me encontrou
Como você me encontrou
O que você está procurando
Você está procurando
Como você me encontrou
Como você me encontrou
Em cima nas sombras
O que você está procurando?

Como você me encontrou
Como você me encontrou


quinta-feira, 24 de agosto de 2017

"O último herói da política"


Hilda Hilst

Como me sinto? Como se colocassem dois olhos sobre uma mesa e dissessem a mim, a mim que sou cego: isso é aquilo que vê, essa é a matéria que vê. Toco os dois olhos sobre a mesa, lisos, tépidos ainda, arrancaram há pouco, gelatinosos, mas não vejo o ver. É assim o que sinto tentando materializar na narrativa a convulsão do meu espírito, e desbocado e cruel, manchado de tintas, essas pardas escuras do não saber dizer, tento amputado conhecer o passo, cego conhecer a luz, ausente de braços tento te abraçar.

(Então)Te amo como as begônias tarântulas amam seus congêneres, como as serpentes se amam enroscadas lentas algumas muito verdes outras escuras, a cruz na testa lerdas prenhes, dessa agudez que me rodeia, te amo ainda que isso te fulmine ou que um soco na minha cara me faça menos osso e mais verdade.

(Por isso)Ama-me. Ainda é tempo. Interroga-me. E eu te direi que nosso tempo é agora. Esplêndida de avidez, vasta ternura 
Porque é mais vasto o sonho que elabora

Há tanto tempo sua própria tessitura. 
Ama-me. Embora eu te pareça 
Demasiado intensa. E de aspereza.
É transitória se tu me repensas.

(Pois) Há sonhos que devem permanecer nas gavetas, nos cofres, trancados até o nosso fim. E por isso passíveis de serem sonhados a vida inteira

Olhos à mesa por Remedios Varo (1908-1963, Spain)

terça-feira, 22 de agosto de 2017

A gente lê por aí (1)

Por que a Geração Z não curte beber ou usar drogasO número de adolescentes usando drogas ilegais caiu pela metade no Reino Unido desde 2001. 

Cresci no sudoeste de Londres nos anos 80 e meu consumo de álcool e drogas não era anormal. Devo ter começado a beber com 14 anos, porque foi nessa idade que fiquei com a ficha suja na polícia por causar um acidente de trânsito depois de muitas cervejas. No ensino médio a gente cheirava corretivo, fumava cigarros na hora do almoço e baforava aerossol no posto local. Na faculdade, participei de maratonas de xadrez chapado, usei LSD e cogumelos entre as árvores e bebi muito em shows punk. Esse é um comportamento estranho para os jovens de hoje? A "Geração Z", o pessoal entre 12 e 22 anos em 2017, chapa mais ou menos que a molecada dos anos 80, 90 e 2000? A Inglaterra está rumando para outra geração de putarias intoxicadas, ou para uma era puritana? Considerando só o que a mídia diz, é difícil saber o que pensar. Há um fluxo constante de matérias dizendo que os garotos pararam de beber — que ser adolescente hoje significa se juntar a um culto crente, gente obcecada por comida orgânica e ioga extrema. Mas vire a página e as mortes por ecstasy estão crescendo, óxido nitroso e Spice estão no pátio de toda escola, e as adolescentes inglesas são as pessoas mais bêbadas do planeta. Na superfície, todas as condições hoje deveriam apontar para um aumento do uso de drogas. Drogas ilegais estão mais disponíveis do que nunca, seja na internet ou nas ruas. Elas são mais aceitas socialmente e as punições para o uso são menos severas. Mas simplesmente não está acontecendo. Todas as evidências mostram que fumar, beber e usar drogas são hábitos em queda livre. No meio dos anos 80, 55% dos adolescentes de 11 a 15 anos já tinham fumado cigarro, e 62% já tinham bebido álcool. Hoje, 18% já fumaram cigarro e 38% usaram álcool. A proporção de adolescentes entre 11 e 15 anos que já usaram qualquer droga ilegal caiu pela metade desde 2001, de 29% para 15%. A história é parecida com a dos jovens no começo da faixa dos 20 anos. Nos livros de história do futuro, 1998 provavelmente vai ser conhecido como o pico do uso de drogas ilegal entre os jovens ingleses. Naquela época, quando todo mundo tinha dinheiro e estava ouvindo Britpop, 31,8% dos jovens de 16 a 24 anos já tinham usado drogas ilegais. Ainda assim, em 2016, principalmente devido a uma queda no uso de cannabis, esse número caiu para 18%. Ainda que tenha rolado um revival em 2012, o uso atual de cocaína e ecstasy caiu se comparado com os picos de 2008 e 2001. E levando em conta a população geral inglesa, drogas como anfetaminas, alucinógenos e poppers hoje são minoria entre os adolescentes. O que está acontecendo então? Por que os jovens, historicamente os consumidores-chave do mercado de drogas, estão largando as drogas e o álcool? Procurando uma resposta, falei com Chloe Combi. Escritora e ex-professora do ensino médio, ela entrevistou dois mil adolescentes para seu livro de 2015Generation Z. Combi falou com eles sobre sexo, relacionamentos, família, escola, crime e saúde, ligando essas questões ao uso de drogas. A pesquisadora, então, ganhou uma visão única sobre o que move a geração do Snapchat. Primeiro, ela quer derrubar o mito de que os jovens estão ficando sóbrios e chatos. "Acho que não fomos dos adolescentes party monsters para todo mundo sentado em casa tomando chá de camomila. Álcool e drogas ainda são uma parte predominante da vida adolescente", diz. "Por exemplo, temos muitos garotos de classe alta envolvidos com cocaína agora. Escolas particulares têm um grande problema com isso. Igualmente, fumar maconha ainda é atraente para um vasto grupo de garotos. Ela [a erva] é acessível e integral para várias culturas adolescentes locais." Mesmo assim, as entrevistas de Combi apontaram por que bebida e drogas são cada vez mais rejeitadas por essa geração. Duas décadas de educação antidrogas, antifumo e anti-álcool hardcore tiveram seu efeito, aponta. "A maior influência para os garotos são outros garotos. Não é estranho dizer 'Não uso drogas nem bebo'. É algo perfeitamente aceitável agora." Ela notou um contraste com sua própria adolescência nos anos 90. "Se era um moleque de 15 anos nos anos 90, você idolatrava Liam Gallagher. Agora, você idolatra Ed Sheeran. Lembro do pico da cocaína com o Britpop quando eu estava na escola, e não acho que ainda exista um glamour associado às drogas hoje." Em seu livro, muitas das referências às drogas não são sobre o uso dos próprios adolescentes, mas sobre os hábitos de álcool e drogas frequentemente problemáticos dos pais. Isso funcionou como um alerta para a nova geração: muitos se afastaram das drogas por causa dos modelos em casa. "Era algo que sempre surgia. Do norte ao sul da Inglaterra, centenas de garotos disseram que se preocupavam com os hábitos de consumo de álcool dos pais", diz ela. "Muitos disseram que os pais bebiam demais, de exageros ocasionais ao próprio alcoolismo." Os celulares também tiveram um papel importante nessa aparente mudança de comportamento. Fora o fato de que há cada vez menos lugares para os adolescentes se encontrarem para se divertir, os smartphones aumentaram o que ela chama de "socialização isolada", o que leva a menos consumo de álcool e drogas. Ainda assim, um dos impactos cruciais no consumo de drogas e álcool, diz Combi, veio com às redes sociais que criaram um nível totalmente novo de vaidade. "Vivemos numa sociedade cada vez mais consciente de sua imagem. É tipo 'não use drogas, coma couve'. Os adolescentes acham que se não beberem ou usarem drogas, se ficarem em casa tomando suco verde e meditando, eles serão bonitos e terão um cabelo brilhante." E cabelo brilhante fica ótimo no Instagram. A maior influência nessa mudança, segundo Combi, é uma paranoia social que explodiu com os smartphones. Os círculos sociais da Geração Z não são apenas um grupo de amigos, mas potencialmente um exame de paparazzi adolescentes, com muito menos limites morais que os profissionais. "Tudo que os adolescentes fazem está sendo filmado, e eles sabem muito bem que cair na net bêbado não pega bem. Então isso afasta as pessoas do álcool e das drogas. Há uma cultura de humilhação de quem bebe e usa drogas na mídia, e essa humilhação social filtrou os garotos. Se eles enchem a cara numa festa, é muito provável que isso vá parar no Instagram ou Snapchat. Adolescentes sempre foram cruéis, e a maioria dos garotos que passarem por alguém desmaiado numa festa hoje em dia vão tirar uma foto." Os adolescentes com quem falei concordam. Emma, uma estudante de 16 anos de Surrey, me disse que suas amigas são muito mais conscientes que os garotos de que encher a cara pode ser um tiro no pé para sua imagem pública. "Perder o controle, vomitar e perder a compostura são coisas que as garotas tentam evitar ao máximo para parecerem mais atraentes." Muitos adolescentes com quem falei disseram que estão preocupados demais para chapar, não apenas por causa das redes sociais mas com a obrigação de se destacar numa paisagem cada vez mais competitiva. Foi algo que Combi encontrou repetidas vezes em suas entrevistas. "Não há o luxo do tempo — há pressão em tudo; o cotidiano deles é focado em resultados e no que eles vão ser na vida", ela me disse. "Os dias em que passar por vários empregos considerados legais era normal acabaram. A face do ensino superior mudou completamente. No passado, se você queria ir para a universidade por três anos e simplesmente chapar, tudo bem. Agora, se você vai sair de lá com uma dívida de £80 mil, é melhor usar esses três anos sabiamente." Mesmo na última década, a mudança tem sido muito perceptível. Desde que chegou a Londres oito anos atrás, Hannah, 26, notou uma diferença. "Comparado com quando eu tinha 18, é muito mais normal sair e não beber, ou ficar seis meses sem colocar uma gota de álcool na boca. É quase tão aceito dizer que você não bebe quanto dizer que bebe. Com as drogas, os jovens estão mais conscientes de sua saúde mental, mais consciência de si mesmos." Mas essa desaceleração é um desvio para uma nação insular com uma reputação de parir adolescentes selvagens? Ou bebida e drogas vão pelo mesmo caminho que o cigarro, que, segundo a previsão de especialistas, estará totalmente obsoleto entre adolescentes nos próximos 20 anos? "Enquanto as pessoas se tornam mais educadas e conscientes de sua saúde, esse tipo de tendência vai continuar", diz Combi. "Dito isso, não acho que o mundo está se tornando um lugar mais feliz que antes. As pessoas precisam de escapismos para o que acontece ao redor delas. Mas álcool e drogas também são uma questão de prazer, e seja lá o que acontecer, as pessoas sempre vão querer curtir a balada." Emma diz que, para ela, a melhor maneira de escapar das pressões desse "mundo que está esperando por nós, o mundo que supostamente está aos  seus pés", é estudando, não enchendo a cara ou chapando como as gerações exteriores. "Em áreas como a minha, os pais estão se tornando mais e mais investidos na vida dos filhos", ela sugere. "Mas crescemos assistindo a vida deles, vendo a exaustão e o descontentamento que eles criaram como a mentalidade de 'graças a Deus é sexta-feira' — então fomos obrigados a procurar outras coisas. Beber e usar drogas em excesso não tem mais lugar na vida dos adolescentes hoje; temos muita coisa para fazer."

Tradução: Marina Schnoor
Esta matéria foi originalmente publicada na VICE UK .
Fonte: https://www.vice.com/pt_br/article/ypqa3y/geracao-z-nao-curte-beber-nem-drogas

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Aos amigos

O Mistério das Cousas

O mistério das cousas, onde está ele? 
Onde está ele que não aparece 
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério? 
Que sabe o rio disso e que sabe a árvore? 
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso? 
Sempre que olho para as cousas e penso no que os 
homens pensam delas, 
Rio como um regato que soa fresco numa pedra. 
Porque o único sentido oculto das cousas 
É elas não terem sentido oculto nenhum, 
É mais estranho do que todas as estranhezas 
E do que os sonhos de todos os poetas 
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as cousas sejam realmente o que parecem ser 
E não haja nada que compreender. 
Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: — 
As cousas não têm significação: têm existência. 
As cousas são o único sentido oculto das cousas. 

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XXXIX" 
Heterónimo de Fernando Pessoa 

Debaixo de tu tem eu

Meu grande amor,
a culpa foi minha
que deixei-te sem sombra
sem rega
que quedei por demais
da minha rosa una

Amor, meu amor,
tu bem sabes
da minha natureza vil,
das marcas na minha pele

Tu
Que me despes e defloras
Tal como pétala rósea
Camada sobre camada
Cálida cebola em ardil
Queimosa e que faz chorar


Debaixo de mim tem eu
Dentro de mim tem tu

domingo, 20 de agosto de 2017

ELES



A gente se acostuma a ficar no escritório até tarde. A perder duas horas no trânsito. A ficar uma hora parada na Marginal. A se espremer no espacinho de metrô e ainda a ficar feliz por ter conseguido entrar.
A gente se acostuma a dormir pouco. A cochilar de exaustão no meio dos filmes. A passar corretivo para disfarçar as olheiras. A tomar vitamina para substituir as verduras que não dá tempo de cozinhar.
A gente se acostuma a ler menos porque não encontra tempo. A gravar áudios ao invés de ligar. A filmar ao invés de curtir o momento. A fazer selfie por qualquer razão.
A gente se acostuma a pagar 500 mil por apartamento que vale 200. A aceitar o preço do aluguel. A viver em 40 metros quadrados. A achar normal o valor do estacionamento.
A gente se acostuma a responder e-mail do trabalho fora do horário de expediente. A achar que não gostar do emprego é normal. A odiar a segunda-feira e contar os dias para a sexta. Nem que seja apenas para dormir e fazer maratona no Netflix durante o final de semana.
A gente se acostuma a ter urgência de tudo. A sentir-se obrigado a responder na hora. A ficar bravo com quem visualiza e não responde no mesmo minuto.
A gente se acostuma a desconfiar de quem se aproxima de repente. De quem puxa papo sem razão. De quem é solícito demais. A gente se acostuma a não dar abertura: para amigos novos, relações novas, trabalhos novos, oportunidades novas.
A gente se acostuma a ter pressa. A se irritar com quem anda devagar. A ter uma vontade incontrolável de ultrapassar.
A gente se acostuma com amigos mais ou menos. A ouvir demais e a falar de menos. A se doar sem receber. A rir mesmo sem achar graça.
A gente se acostuma a ter opinião sobre tudo. A criticar sem saber direito sobre o que está falando. A julgar o tempo todo. A condenar sem pensar em quem está do outro lado.A gente se acostuma a brigar no Facebook. A xingar no Twitter. A se exibir no Instagram. A achar normal os comentários dos haters. A gente se acostuma a levantar bandeiras e a bloquear quem discorda delas. A gente se acostuma a ter preguiça do debate. Talvez porque as pessoas se acostumaram a agredir ao invés de debater.
A gente se acostuma a olhar sites de viagens sem comprar a passagem. A ler críticas gastronômicas sem ir ao tal restaurante. A sonhar e nunca realizar: aquela viagem, a mudança de emprego, a vida em outro país.
A gente se acostuma a não ter mais primeiras vezes: a primeira vez aprendendo um instrumento novo, a primeira vez em um lugar diferente, a primeira vez em um curso que a gente sempre quis fazer e sempre adiou. A gente se acostuma até a comprar constantemente a mesma bolacha no supermercado, a frequentar o mesmo restaurante, a fazer o mesmo caminho para o trabalho. A gente se acostuma a confundir preferência com hábito.A gente se acostuma a se amarrar na rotina. A esquecer a sensação boa do arrepio, da surpresa, da descoberta, do acaso.
A gente se acostuma a viver quando dá tempo. E, cada vez mais, a gente quase nunca tem tempo. A gente se acostuma, mas não devia.
POR TARCILA ZAMAMI inspirado no texto original de "Eu sei, mas não devia" de Marina Colasanti. FONTE: http://confissoesesincericidios.com/a-gente-se-acostuma-mas-nao-devia/