segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Aos amigos

O Mistério das Cousas

O mistério das cousas, onde está ele? 
Onde está ele que não aparece 
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério? 
Que sabe o rio disso e que sabe a árvore? 
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso? 
Sempre que olho para as cousas e penso no que os 
homens pensam delas, 
Rio como um regato que soa fresco numa pedra. 
Porque o único sentido oculto das cousas 
É elas não terem sentido oculto nenhum, 
É mais estranho do que todas as estranhezas 
E do que os sonhos de todos os poetas 
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as cousas sejam realmente o que parecem ser 
E não haja nada que compreender. 
Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: — 
As cousas não têm significação: têm existência. 
As cousas são o único sentido oculto das cousas. 

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XXXIX" 
Heterónimo de Fernando Pessoa 

Debaixo de tu tem eu

Meu grande amor,
a culpa foi minha
que deixei-te sem sombra
sem rega
que quedei por demais
da minha rosa una

Amor, meu amor,
tu bem sabes
da minha natureza vil,
das marcas na minha pele

Tu
Que me despes e defloras
Tal como pétala rósea
Camada sobre camada
Cálida cebola em ardil
Queimosa e que faz chorar


Debaixo de mim tem eu
Dentro de mim tem tu

domingo, 20 de agosto de 2017

ELES



A gente se acostuma a ficar no escritório até tarde. A perder duas horas no trânsito. A ficar uma hora parada na Marginal. A se espremer no espacinho de metrô e ainda a ficar feliz por ter conseguido entrar.
A gente se acostuma a dormir pouco. A cochilar de exaustão no meio dos filmes. A passar corretivo para disfarçar as olheiras. A tomar vitamina para substituir as verduras que não dá tempo de cozinhar.
A gente se acostuma a ler menos porque não encontra tempo. A gravar áudios ao invés de ligar. A filmar ao invés de curtir o momento. A fazer selfie por qualquer razão.
A gente se acostuma a pagar 500 mil por apartamento que vale 200. A aceitar o preço do aluguel. A viver em 40 metros quadrados. A achar normal o valor do estacionamento.
A gente se acostuma a responder e-mail do trabalho fora do horário de expediente. A achar que não gostar do emprego é normal. A odiar a segunda-feira e contar os dias para a sexta. Nem que seja apenas para dormir e fazer maratona no Netflix durante o final de semana.
A gente se acostuma a ter urgência de tudo. A sentir-se obrigado a responder na hora. A ficar bravo com quem visualiza e não responde no mesmo minuto.
A gente se acostuma a desconfiar de quem se aproxima de repente. De quem puxa papo sem razão. De quem é solícito demais. A gente se acostuma a não dar abertura: para amigos novos, relações novas, trabalhos novos, oportunidades novas.
A gente se acostuma a ter pressa. A se irritar com quem anda devagar. A ter uma vontade incontrolável de ultrapassar.
A gente se acostuma com amigos mais ou menos. A ouvir demais e a falar de menos. A se doar sem receber. A rir mesmo sem achar graça.
A gente se acostuma a ter opinião sobre tudo. A criticar sem saber direito sobre o que está falando. A julgar o tempo todo. A condenar sem pensar em quem está do outro lado.A gente se acostuma a brigar no Facebook. A xingar no Twitter. A se exibir no Instagram. A achar normal os comentários dos haters. A gente se acostuma a levantar bandeiras e a bloquear quem discorda delas. A gente se acostuma a ter preguiça do debate. Talvez porque as pessoas se acostumaram a agredir ao invés de debater.
A gente se acostuma a olhar sites de viagens sem comprar a passagem. A ler críticas gastronômicas sem ir ao tal restaurante. A sonhar e nunca realizar: aquela viagem, a mudança de emprego, a vida em outro país.
A gente se acostuma a não ter mais primeiras vezes: a primeira vez aprendendo um instrumento novo, a primeira vez em um lugar diferente, a primeira vez em um curso que a gente sempre quis fazer e sempre adiou. A gente se acostuma até a comprar constantemente a mesma bolacha no supermercado, a frequentar o mesmo restaurante, a fazer o mesmo caminho para o trabalho. A gente se acostuma a confundir preferência com hábito.A gente se acostuma a se amarrar na rotina. A esquecer a sensação boa do arrepio, da surpresa, da descoberta, do acaso.
A gente se acostuma a viver quando dá tempo. E, cada vez mais, a gente quase nunca tem tempo. A gente se acostuma, mas não devia.
POR TARCILA ZAMAMI inspirado no texto original de "Eu sei, mas não devia" de Marina Colasanti. FONTE: http://confissoesesincericidios.com/a-gente-se-acostuma-mas-nao-devia/

sábado, 19 de agosto de 2017

Sobre peleias e lições

Quem sabe não seja por questão de conserto
(Ás vezes
não é
por falta de querer ou mesmo tentar)
Existem coisas pelas quais é preciso aprender
a deixar
quebrar
partir
ou morrer

Ainda que diante da mesa posta
Da preguiça exposta na louça suja do jantar
Dos solenes pratos em exposição na sala
Dos grandes pedaços quebrados na festa de bodas
Dos cacos esmiuçados na primeira última briga

Qual essa necessidade latente em consertar sempre tudo
Transformar pleno em nada?
Qual o problema em aceitar o que era
Aquilo que fora
O que se é?


"Não se assuste, pessoa (...)
Eu sou o amor da cabeça aos pés"

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Estúpidas Provocações

Você Não Presta
Mallu Magalhães
Vem, eu não tenho mistério, não
Eu guardo as minhas cicatrizes
Mantenho as minhas diretrizes
Não, eu não tenho segredo, não
Mas tenho o meu império interior
Meu mundo solitário
Eu convido todo mundo para a minha festa
Só não convido você porque você não presta

(Mas eu gosto de você)

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Garotos da Asa Sul

É madrugada e eles gritam
Gritam
Bem alto
Bem forte
Dissolvendo a escuridão
Despertando sonhos
Buscando uma grande explosão
Estratosférica-orgástica
Seja lá o que signifique
Todos os dias são como aulas perdidas
Sapatos brancos desamarrados perdendo-se em corredores selados
Marcas em padrão
Paredes uniformes guardadas por relógios
Por sérios ponteiros dependurados
Tão adultos tão chatos tão mórbidos
Quanto maduros
Prontos e prestes a cair bem na hora
Por isso estamos sempre atrasados, amor
Porque somos tão jovens


LÃNGUIDAS PROVOCAÇÕES

“Agora, se estamos falando de corpo
Você tem um perfeito
Então coloque-o em mim
Juro que não levará muito tempo
Se você me amar direitinho
Nós transaremos para sempre
De novo, de novo e de novo"


"Morda-me enquanto eu provo seus dedos”


domingo, 13 de agosto de 2017

Cine Jota

("Você me deixa louco")


"- Já leu algo que parece que foi escrito por você?"

Passageiros - o filme

sábado, 12 de agosto de 2017

"Regalos para el corazón"

Quando eu fecho os olhos
Chico César

E aí você surgiu na minha frente
E eu vi o espaço e o tempo em suspensão
Senti no ar a força diferente
De um momento eterno desde então
E aqui dentro de mim você demora
Já tornou-se parte mesmo do meu ser
E agora, em qualquer parte, a qualquer hora
Quando eu fecho os olhos, vejo só você
E cada um de nós é um a sós
E uma só pessoa somos nós
Unos num canto, numa voz
O amor une os amantes em um ímã
E num enigma claro se traduz
Extremos se atraem, se aproximam
E se completam como sombra e luz
E assim viemos, nos assimilando
Nos assemelhando, a nos absorver
E agora, não tem onde, não tem quando
Quando eu fecho os olhos, vejo só você
E cada um de nós é um a sós
E uma só pessoa somos nós
Unos num canto, numa voz

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Um tom de azul pra cada dia



Aves de rapina

Falcão-peregrino,

"o simples bater de asas de um pássaro pode causar um furacão do outro lado mundo". Assim se guiam, aparentemente às cegas, as aves que se lançam pela imensidão azul solar, não à sombra de bússolas ou modernos artifícios de navegação, mas à luz das batidas do seu coração. Quanto tempo demora pra percorrer a distância de um pensamento? Quanta saudade cabe no espaço entre nós? Por que a dor continua  frutífera planta úmida na poesia atravessando eras enquanto o poeta jaz ossos secos em vasos escavados por gatos no jardim? Por que o amor se traduz em quatro letras, mas não cabe um beijo no poema? O que se atreve e contradiz o natural a impedir o que se impele e chama, instinto? Quando o meu Norte aponta pro seu Sul? Gravidade, terra e céu? Necessidade, presa e caçador? Liberdade, você e eu?


quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Para "W", com amor


Miscelânea Septuagenária - C. Bukowski

Outra vez

Se você soubesse que quando eu te olho a menina dos meus olhos se transforma na menina dos seus sonhos. E quando fecho os olhos só vejo você.


Se soubesse que quando me toca nenhuma palavra obedece as minhas ordens, mas as suas, que quando me beija nenhum pensamento se aplica. O meu corpo me trai com você a qualquer instante enquanto o mundo se esquece do tempo e eu sinto (o que sei) que preciso de você outra vez, outra vez. 

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Saudade, nosso lugar comum

Eu não ando por aí a esmo
Eu não corro mais

Caminho em círculos passados
Esperando o presente juntar ao acaso
A futura esperança de encontrar você

E me pego nas mesmas esquinas
Mudando as calçadas
Avalizando a rotina
Onde nasce e morre mais um dia
Menos essa saudade

Eu não ando por aí a esmo
Eu não corro mais
(Eu espero por nós)


Quando vou te encontrar?

segunda-feira, 31 de julho de 2017

CINE JOTA - Históricos e pegadas virtuais

Outro dia
Vi por aí
Num anúncio de jornal ou outdoor
Ou capa de revista
Acho que foi num documentário
Talvez sobre a vida selvagem da cidade
Sobre a fobia do homem doméstico
E suas inutilidades
Seu endereço fake
Com piscina, gazebo
E pátio com rede social
Seu mundo plano com Vista e janela de tela líquida azul
Sua vidinha plena e filtro perfeito
E smartphones que sabiam demais



Perfeitos Desconhecidos

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Defeitos colaterais

"Do que me serve a história
Quando tudo se reduz 
À sombra das três da tarde
Embaixo de uma folha?

E se a mente fica atormentada
E a rosa morde
Como um cão,
Dizem que temos amor...

Mas de que me serve o amor 
Quando todos nascemos
Em diferentes momentos e lugares
E só nos encontramos
Através de um truque dos séculos
E três passos casuais
À esquerda?"

(O Velho Safado - Sobre o amor e outras insanidades)


domingo, 23 de julho de 2017

W.O. - o dia do amigo

A primeira lição de como sobreviver no - e não ao - mundo real consiste em fazer amigos. Um dia, se você tiver alguma sorte, uma tarde, e como sorte não dá em árvores e não é tão popular quanto ser assaltado em plena marginal, na maioria dos casos será uma manhã mesmo, você vai (ou foi muito provavelmente) ser jogado no meio ambiente conhecido, ou ainda desconhecido, como escolar. Ao ser abandonado sem explicações ou motivo aparente você poderá chorar, espernear ou tentar quaisquer outros truques esperados que golpe telegrafado tem menos eficácia que vacina vencida do governo. Tranquilize-se você irá entender que a única tábua de salvação que se vai encontrar é a empatia. Que assim começam as amizades, historicamente a humanidade só se reúne em torno dos mesmos ideais: seja a conveniência em fazer parte de um círculo ou tornar a vida dos professores uma longa saga até a aposentadoria. Desde sempre me orgulhei dos amigos que fiz, ou melhor, das amizades que mantenho e me surpreendia quando alguém me falava que não tinha amigos. Nunca achei que tivesse perdido um único amigo até parar pra pensar nisso nos últimos dias, até me deparar com a primeira baixa no pelotão. Mas afinal quando se perde um amigo? Dizem que ninguém encontra o grande amor da vida no meio da balada de madrugada vomitando em postos de gasolina, em contrapartida dos amigos. "Amigos superam qualquer coisa, por isso não se perde um amigo" . Será?  Amigos são póstumos, de outras vidas, irmandade, uma seita.  E são mesmo. A amizade talvez seja das poucas coisas à prova do tempo. Mesmo assim a vida irreverente e seus carrascos acasos de humor duvidoso nos põe às vezes em jaulas perigosas, de frente, em octógonos de lutas diárias e opostas. Quando isso ocorre com um amigo é que a porra fica deveras séria, domador com cadeira e chicote contra leão, é final de campeonato entre a turma da rua de cima e a gurizada da rua de baixo, Warriors voltando pra casa. Ponto crucial. E às vezes, quando se é gente grande, é um profundo desejo de felicidades e algo melhor (ainda que não seja conosco) que não tem lugar num abraço e que não cabe num tímido aperto de mãos. É W.O.

A sentença

"Eu amei você" - você disse em um sonho breve e distante em filme sépia, preto e branco, passado perfeito intransigentemente silente. "Eu amei você" - você disse, e aquela frase cega a ecoar tão simples me cortou tão profundamente ao meio. "Eu amei você, como você queria, como talvez ninguém tenha amado" - e meu eu sucumbiu ferido, despedaçado, vertendo devagar sem que pudesses ver. "Eu amei você, mas não digas nada" - e eu entalado, suprimido, engasgado sem poder. "Eu amei você", você disse, e esse era enfim o som da verdade ao sair da sua boca, da coisa mais bonita e do nosso fim. (?)


" Eu amo você" - foi a última frase que eu disse, porque era a verdade e mais importante, a única coisa a se dizer.

sábado, 22 de julho de 2017

Lânguidas Provocações (riscando vidas)

A primeira vez que ele meteu - fundo - ela finalmente olhou de volta. E foi como se fosse a primeira vez que ela o tivesse visto.  Gozando ela julgou não saber se o raio que a atingira lhe havia fundido ou dividido para sempre. Não podia acreditar que esperar por ele fosse como esperar pela chuva no deserto. Alguém já disse que as experiências são como vacinas, só nos protegem de vírus conhecidos. E assim ela se viu outra vez sem saída, sem todas as suas reservas e nenhuma guarda, prostrada e prestes a morrer de amor.



domingo, 16 de julho de 2017

Estúpidas provocações


-  Sloane -

A inegável incorruptibilidade do querer

Eles

"Isso não é sobre você. Eu não gosto de pessoas. Pessoas são preguiçosas. Você acha que não gosto de você porque é negro? Pessoas brancas não tinham escravos por preconceito. Não - por preguiça. Se houver um jeito de fazer algo da forma mais fácil pessoas farão. O certo é sempre o mais difícil". 


sexta-feira, 14 de julho de 2017

PLANETAS (...)

Nós éramos jovens o suficiente para assinar
Ao longo da linha pontilhada

Agora somos jovens o suficiente para tentar
Para construir uma vida melhor


quarta-feira, 12 de julho de 2017

"REGALOS PARA EL CORAZÓN"



Desde que você me ame


Embora a solidão sempre tenha sido minha amiga
Estou deixando minha vida em suas mãos
As pessoas dizem que sou louco e cego
Arriscando tudo num piscar de olhos
Como você me cegou ainda é um mistério
Eu não consigo tirar você da minha cabeça
Não me importa o que está escrito na sua história
Desde que você esteja aqui comigo

Não me importa quem você é
De onde você veio
O que você fez
Desde que você me ame
Não me importa quem você é
De onde você veio
Não me importa o que você fez
Desde que você me ame

Cada pequena coisa que você tenha dito e feito
Parece ter ficado dentro de mim
Realmente não importa se você está só de passagem
Parece que fomos feitos um para o outro

Refrão
Não me importa quem você é
De onde você veio
O que você fez
Desde que você me ame
Não me importa quem você é
De onde você veio
Não me importa o que você fez
Desde que você me ame

Ponte
Tentei esconder para que ninguém soubesse
Mas acho que dá para notar
Quando você olha dentro dos meus olhos
o que você fez e de onde você veio
Não me importa, desde que você me ame, querida

Não me importa quem você é
De onde você veio
O que você fez
Desde que você me ame
Não me importa quem você é
De onde você veio
Não me importa o que você fez
Desde que você me ame

Não me importa quem você é
De onde você veio
O que você fez (eu não me importo)
Desde que você me ame

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Eu-Defeito

Não me encanta o seu rosto
Não me consolam as suas curvas
Não me convencem os seus sorrisos

Mas no fim
Do dia
Da guerra
Da vida
É você o que tenho

Mesmo
Que não me comovam as suas tragédias
Que não me embalem as suas quimeras
Que não me envenenem as suas desculpas

Talvez
Precise entender que
No final
Ainda continua

Só.


XP

Qual a diferença
Entre ganhar ou perder
Diante da indiferença?

Ou a cor do cabelo
O preço da blusa
Pra combinar com
Seu carro novo?

É preciso tudo
Quando nada é suficiente?

Talvez sejamos
Versões desatualizadas e
Incompatíveis com as
Quais fingimos ser
Atuais


PLANETAS (...)

Netuno

Negra escuridão, pálido azul
Foi uma bela
Variação da verdade
E eu me senti de mãos vazias

Você me deixou zarpar
Com madeira barata
Então eu remendei
Cada vazamento que eu pude
Até que a culpa ficou muito pesada.

Ponto a ponto eu rasguei
Se quebrantamento é uma forma de arte
Eu devo ser uma criança prodígio
Fio por fio eu desmoronei
Se quebrantamento é uma obra de arte
Certamente esta deve ser a minha obra-prima

Eu sou honesto apenas quando chove
Se eu cronometrar certo, o raio parte
Quando eu abro minha boca
Eu quero te dizer, mas eu não sei como

Eu sou honesto apenas quando chove
Um livro aberto com uma página arrancada
E minha tinta escorre
Eu quero te amar, mas eu não sei como

Eu não sei como
Não, eu não sei como
Eu não sei como.
Eu quero te amar, mas eu não sei como

Eu quero te amar

Negra escuridão, pálido azul
Estes oceanos selvagens
Sacodem o que sobrou de mim
Só para me ouvir clamar por misericórdia

Um forte vento em minhas costas
Então eu levanto a única vela que eu tenho
Esta cansada bandeira branca

Eu sou honesto apenas quando chove
Se eu cronometrar certo, o raio parte
Quando eu abro minha boca
Eu quero te dizer, mas eu não sei como

Eu sou honesto apenas quando chove
Um livro aberto com uma página arrancada
E minha tinta escorre
Eu quero te amar, mas eu não sei como
Eu não sei como, sei como, sei como
Eu quero te amar, mas eu não sei como
Eu quero te amar



domingo, 9 de julho de 2017

EXPERIMENTAÇÕES

Para o Raul, com amor


CINE JOTA



Confio nas mentiras, elas sempre dizem a verdade. Se dissesse a verdade te mentirias. Porque olhas para mim com um deus, e quando não olhas...  Esta noite sonhei contigo.
- Quem te deu permissão? - Duende maníaca.
- Preferias que eu pedisse? - Elfo maníaco.
- Não. Não me agradam os homens que pedem permissão pra sonhar - Duende maníaca.
- Há regras? 
(Apenas seguiremos jogando)

sábado, 8 de julho de 2017

CINE JOTA



"E ela o assombra com seus longos e belos cílios, e sua solidão de Himalaia. (- aposto que é a mulher do delegado, ela é deslumbrante). As mulheres estão aqui para nos lembrar da nossa natureza. E ele gosta de poder, tal como uma mulher. Essa é a sua natureza, eternamente nascido de mulher. (...) E se não der certo vai bater no peito como um gorila. Metade gorila metade órfão."

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Lânguidas Provocações


Memórias de fatos inventados

Hoje alguém me falou de você e a minha primeira lembrança confusa foi de nós na cozinha catando feijões pretos. Naquela época os feijões ainda chamavam-se assim, agora, eles são afrodescendentes ou algo similar. É bom falar "naquela época" é das poucas coisas que a idade convém. Ouvi dizer que o mundo mudou bastante desde então, mas aposto com você que o mundo ignora nossas mudanças risíveis. "O mundo é o mesmo" acompanhando nossas grandiosas e infanto-juvenis descobertas: gravidade, forma, translação etc. Atmosferas e universos particulares orbitando muros, sistema insolar. E você e eu.  As mulheres da minha família sempre foram únicas: práticas e singulares. Quando pequena minha mãe não costumava nos pegar no colo "nem se cair, nem se chorar". E se por um lado isso nos fez mais fortes também mais frágeis.  Minha avó amava seus netos, todos os netos, mas não havia o tempo para tolices que há agora. Então, eu tinha você emprestada todas as tardes desde miúda pra me fazer carinho no rosto e bolo de laranja.  Pra contar histórias e falar da vida. Por isso eu me esforçei pra lembrar de qualquer coisa sua, um conselho, alguma frase ou trecho de conversa. Mas a memória é surda e tudo que eu me lembro é da sensação de doçura que era ter você por perto. A ironia é que hoje me falam tanto que essa é uma das características mais minhas. Eu só posso creditar ao que herdei de você.


QUEM NUNCA


"Say you'll remember"

sábado, 1 de julho de 2017

PEQUENAS DOSES DE REALIDADE


Você não pode mudar o passado, o que fez, onde e com quem nunca esteve. "Primeira grande lição: nem todas as viagens no tempo farão uma pessoa te amar. " É o futuro uma Questão de Tempo.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Aqui tem uma bela filha da puta apaixonada

Sinceramente eu não achei que a essa altura da vida eu pudesse estar mais enganada. Achei que não acreditar me pudesse impermeabilizar de ilusões. Um jeito simples e comum de me vestir de blasé ou como você me dizia uma forma de me vestir adequadamente para qualquer ocasião. Não parece ter funcionado pois a todo momento me lembro de coisas que fez ou disse, tento me esquivar como aquela bendita cobra que você tanto contava. Nunca sei da onde veio o tiro. Eu quase posso corar quando me recobro dos seus olhos quentes, faiscantes e famintos. Sem querer ou mesmo poder evitar imagino como agora você está? Se sentirá minha falta como eu? Eu tento agora não pensar muito e ao fazê-lo já sei que recaio na redundância. Fico evitando cruzar com as possibilidades e fico em paz de ter dito-lhe a verdade sobre as coisas que eu gostaria. Não preciso fechar meus olhos pra saber que algo mudou para sempre. E eu não esperei por isso. Eu não sabia que o encontraria. Eu não fazia ideia de como seria me apaixonar e perder você. 


Eu não escrevi nosso final.

CINE JOTA





quinta-feira, 29 de junho de 2017

ALEPO

Não é mesmo à toa a parábola da moeda extraviada, da ovelha perdida ou do filho pródigo. Viver é sobre perder-se. Abrir mão de certas coisas. Fazer escolhas. Deixar fluir. Alguém já disse no judiciário que o ladrão pagará qualquer quantia por sua liberdade, mas não hesitará a perdê-la pelo mínimo trocado. A vida é uma piada que a gente custa a entender. E vendo assim parece até quase justo diante dessa gloriosa dádiva o decréscimo de descontos. Perdemos tempo, cabelo, dentes, viço, amizades, memórias, coragem, viagens, oportunidades...  Enfim, algum célebre escritor de best sellers que escalou o monte Fuji e dividiu uma tenda com índios em uma tribo isolada no Peru dirá que ironicamente as perdas nos farão mais fortes, mais sábios quando em verdade só nos tornaram cientes do que sobrou.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

CARTAS E RECADOS

Querido,

estou preocupada com você.

Não sei se ainda tem meu número ou por onde você está.

Pode falar comigo por aqui ou mandar um e-mail, prometo que respondo e mando novamente o contato.

oelementojota@gmail.com

"J"



PS: também sem chão, saudades. Não quero que vá sem que eu possa vê-lo. Apenas diga-me onde e quando posso encontrá-lo.

"Como eu era antes de você"

Pauline Sara Jo Moyes é mais uma típica escritora londrina de quarenta e sete anos que mora em uma quinta em Saffron Walden, Essex com seu marido, o jornalista Charles Arthur e seus três filhos. Quando mais jovem, aluna aplicada, conseguiu uma bolsa que acabou por levá-la ao jornalismo e que como em seus próprios textos culminou a aproximá-la do seu talento natural que são curtos romances para serem lidos durante o chá da tarde ou viagens de trem. Não menciono isso em tom de chacota ou desprezo, mas em perfeito reconhecimento da sua maestria em fazê-lo com propriedade. São textos simples, e não simples textos, com ideias tocantes que levaram-na ao gosto popular sem apelos. Pouco conhecida por seus demais trabalhos "Como eu era antes de você" (2012) publicado no Brasil pela editora Intrínseca foi muito renegado pela crítica após uma onda de paródias românticas clichês, mas o livro adquiriu força e galgou até os cinemas. Pessoalmente a única coisa que me interessou de início foi o título, mas confesso que apesar dos pesares o livro traz uma perspectiva diferente do comum, o que em si já valerá suas duas horas de leitura ou de película e no mínimo vai fazer você pensar:


"Como eu era antes de você" ?

terça-feira, 27 de junho de 2017

Último pedaço

Para a massa o diferente é a poesia
Para o poeta o cotidiano é o poema

Você me abraça pelos e língua
Devora
Sorve
Cada uma de minhas ideias sujas
Suga cada entrelinha
Me come por inteiro

E eu já sinto a sua falta antes até da sua partida
Por isso espero que por alguma razão você por fim compreenda
Que sou apenas o poeta e não sou feita de poesia,
Mas de amor.



segunda-feira, 26 de junho de 2017

PARADOXOS NOTURNOS

Terra distante

À luz do dia
Irrompeu uma misteriosa onda adormecida
Despertou preguiçosa estrela cadente
Que deliciosa sussurrou rastros de segredo
Intempestivos
Que caíram como areia
Sobre nós

E o minuto que eu achei que era tarde
Era raro agora
Passou como raio
Deixando-me solitário fulgurito
Vendo tudo de mim
Espalhado sobre a mesa
Sem saber como juntar num abraço
Palavras aos pequenos pedaços
Nos quais me parti

Soube então
Que era o momento da despedida
E eu pela primeira vez na vida
Não queria ficar


Um dia você me falou sobre o seu sonho de avistar o brilho verde.
Juro por seus olhos, eu vi.

domingo, 25 de junho de 2017

Memórias de fatos inventados


Um tom de azul pra cada dia

"Em caráter de lucidez momentânea
Romperam as algemas lógicas
Enquanto Cronos estremecia em cólicas
Pois eram imunes
Ao que os normais temiam

E viam
E viam
E sentiam

Mas a estrela
Que eu tanto olhava
Sumiu e raptou meu suspiro
As trevas engoliam a luz do belo astro
De maneira a me causar devaneio
Calafrio
Delirio

Dessa forma continuo tateando
Na esperança que aquele momento
Não seja só um ponto sensível
Em uma vida de engano"

Autor
 ( T + J) = 8

sábado, 24 de junho de 2017

Quem Nunca

Cobertor

Eu sei, que o tempo pode afastar a gente
Mas se o tempo afastar a gente é porque o nosso amor é fraco demais
E amores fracos não merecem o meu tempo, não mais
Simplesmente, eu sei que tudo que foi importante pra mim
Na Minha vida se foi então me fez ser assim
Dentro dessa armadura nessa vida dura
Não sou Indiana Jones, então sem aventura
Porque só tinha conhecido gente louca
Tinha medo de um "eu te amo" sair da minha boca
Até que um dia ele saiu
Eu gelei, e te olhei, você disse: eu também, e sorriu
Maluco o suficiente pra gostar de mim
Corajoso o suficiente pra ir até o fim
Se eu tivesse te desenhado e te encomendado
Teria feito exatamente assim
Ele me disse: Vai!
Eu disse: Já vou!
Ele me disse: Volta!
Eu disse: Oôôu...
Ai que saudade de você, debaixo do meu cobertor
Ai que saudade de você, debaixo do meu cobertor

Eu sei que sobre nós
Tudo é sempre complicado
Mas, um dia vai se descomplicar, pode acreditar
Te dei meu coração, você cuidou tão bem
Que agora quero entregar meu corpo pra você também
Em, me diz se eu to errado, mina
Mas algo me diz que a nossa vibe combina
Eu tava ali, procurando o meu rumo pra seguir
Que bom quando eu te vi, tava tudo tão chato por aqui
Eterno nada é, posso dizer
Mas eu vou fazer o possível pro nosso amor ser
Um dia, a gente vai se ver bem velhinho pelo espelho
E eu cantando outra música pra você
Pois quando a gente se entrega pra vida
A vida só nos devolve coisas boas
E ela me deu você
E eu vi nessa corrida que você é só você
E pessoas são pessoas

Ele me disse: Vai!
Eu disse: Já vou!
Ele me disse: Volta!
Eu disse: Ôoo..
Ai que saudade de você, debaixo do meu cobertor
Ai que saudade de você, debaixo do meu cobertor

Eu sei, que o tempo pode afastar a gente
Mas se o tempo afastar a gente
É porque o nosso amor é fraco demais
E amores fracos não merecem o meu tempo


"Eu não sou besta pra tirar onda de herói "

Não me ame tão cedo
Se você não pode parar o tempo (por nós)
Aquele segundo durou quase um segundo
Um instante para vida inteira
Momentos que não foram suficientes
Rabiscos esquecidos em muros

Não me ame só porque me acha diferente
Eu me firo e sangro como todo mundo

E se ainda sim
Insiste que entre nós existe
Um amor assim
Mereça-o ou então esqueça
O que um dia sentiu por mim


quinta-feira, 22 de junho de 2017

CÉU



Eu só quero você
E mais nada...(2x)

Não me engana
Vem beleza humana
Fica ao meu lado
Preciso de amor
Outra cena
Somos dois poemas
Apaixonados
Poderemos sonhar...

Eu só quero você
E mais nada...(2x)

Vida humana
Tem outra vida humana
Que bom seria
Um dia nós dois
E na cama
Ôh beleza humana!
Sonho ao teu lado
Preciso de amor...

Mil e uma noites de amor
De amor, de amor
Você chegou!
Você chegou!
Mil e uma noites de amor
Você chegou!
Você chegou amor
Chegou amor, chegou amor
Chegou amor, chegou

segunda-feira, 19 de junho de 2017

ESTÚPIDAS PROVOCAÇÕES

Disse que faria e fiz. Contra a acusação de que não vou à praia e não prestigio a bacanagem dos eventos típicos do nosso país tropical, ou ainda, que não balanço a minha bunda aos finais de semana nas festas de família provenientes de acusações levianas que consistem em inverdades originárias de uma inferência equivocada por parte do meu caro amigo JB do adorável recanto da Solidão Ampliada "Blogson Crusoé" aí vai minha defesa, ou melhor, meu contra-ataque, um pagodão de respeito da época em que se permitia ao cara ser um bom canalha de uma boa dona, sem frescuras e de um bebedor e intérprete de primeira - não sei se na ordem correta e/ou justa - ao estilo carne queimada, descolorante na pele e cloro no cabelo. Que intelectual é a ...


EXPERIMENTAÇÕES

Altruísmo:

Às vezes
O melhor a fazer pelo outro
É ferir

(Seja com beijos de naftalina
Ou bilhetes guardados sob os sapatos de deus)


quinta-feira, 15 de junho de 2017

Pra você dar o nome

Não sei se já existiu
E mentalmente eu rezo
Palavras sopradas
Inadvertidas
Que vêm na frequência de ondas em sílabas
Bravas porém não destemidas
Que sejamos como pequenas e mornas pegadas
A serem apagadas 
Ou levadas pelo ar

Afundo então na profusão
Da textura
De cores feitas de areia 
E sinto
O que
Você é 
Assim
Como eu

Anticor.



Um tom de azul pra cada dia

Apartamento 26
Call me Lolla
Quando chegar
Espera um pouco ai fora
Eu quero ver você
Pelo olho magico
E preparar
Um sorriso lindo
Antes de você entrar
Não me de nada alem
Desses braços que são
O melhor lugar do mundo
E se quiser
Chega de surpresa
Que isso é bem você
E isso é magico
Vou preparar
Uma xícara de chá
Para você ficar
E não ir embora nunca mais
E não ir embora nunca mais
E não ir embora nunca mais
Quando chegar
Espera um pouco ai fora
Eu quero ver você
Pelo olho magico
Preparar
Uma xícara de chá
Para você ficar
Não me traga flores
Eu perco o controle
Se convida para entrar
Não me traga flores
Eu perco o controle
Se convida pra ficar
Pra não ir embora nunca mais
Pra não ir embora nunca mais
Pra não ir embora nunca mais

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Lucífugos

À noite,
luzes reversas
brincam distantes com poças noturnas
onde o sono é revel.

À noite,
menina suja,
pouco importa que tenham perdido o jantar:
sentidos rebeldes e
humana vilania.

À noite,
é quando a vida leviana
se despe dos encargos de ser
e sonha acordada
com a sua própria hora de dormir
e se abraça nua ao travesseiro de segredos
onde debaixo
está você,
e respira aliviada
pois é hora de viver.




sábado, 10 de junho de 2017

"Regalos para el corazón"


Aqui. Sussurre, não diga a ninguém. Esconda tudo. Grite. Não faça absolutamente nada. Faça tudo que bem entender ou quiser. Sonhe. Não lhe darei ordens ou ditarei regras. Só estou profundamente grato por você.