sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Dos males sempre o maior - a primeira a chegar, a última a morrer

Quantas vidas é possível perder
Antes de poder viver alguma vez?



Sim
e você conhece
(me conhece)
toda a verdade
(a minha verdade)
você sabe
você sabe
sobre a linha de chegada
que brincamos de apagar

você pisa em falso
(joelhos frágeis)
e eu sorrio o vazio dos dentes de leite pra você

quando eu sou criança
e você velho
eu sou você

sabendo de um tudo
sem saber fazer nada

somos assim.


domingo, 10 de dezembro de 2017

Cine Jota

Try Me (James Brown) 

Me teste, Me teste
Querida, me diga,
Eu preciso de você
Me teste Me teste
E seu amor será sempre verdadeiro
Oh, eu preciso de você ( eu preciso de você)
Abraça-me Abraça-me
Eu quero você aqui ao meu lado
Abraça-me Abraça me
E o seu amor não vamos esconder
Oh, eu preciso de você(eu preciso de você)
Oh, eu preciso de você(eu preciso de você)
Oh Oh caminhe comigo (caminhe comigo)
Converse comigo (converse comigo)
Quero que o meu coração parar de chorar
Caminhe comigo(caminhe comigo)
Converse comigo(converse comigo)
E seu amor impede meu coração de morrer
Oh,eu preciso de você(eu preciso de você, Oh Oh)


sábado, 9 de dezembro de 2017

O Xis da questão (Eu = a você)

Certas vezes
Um caso a pensar
É menos que o acaso

E questiono
No escuro
Sem jamais descobrir
Se a verdade
Restará soterrada

Máscara sobre​ máscara
Pintura nova sobre velha camada

E isso me enlouquece
Mas não incomoda


Solução

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Um tom de azul pra cada dia


Faminta (part. Zedd)

Você sabe exatamente o que dizer
Coisas que me assustam
Eu deveria simplesmente ir embora
Mas eu não posso mover meus pés
Quanto mais te conheço
Mais te quero
Algo dentro de mim mudou
Eu estava muito mais jovem ontem
Eu não sabia que estava faminta até que provei você
Não preciso de borboletas na barriga quando você me dá o zoológico inteiro
Além disso, além disso você faz coisas ao meu corpo
E eu não sabia que estava faminta até que provei você
Além disso, além disso você faz coisas ao meu corpo
E eu não sabia que estava faminta até que provei você
Você sabe exatamente como fazer
Meu coração bater mais rápido
Terremoto emocional
Traga o desastre
Você me bateu na cabeça
Me deixou frágil, de joelhos
Algo dentro de mim mudou
Eu estava muito mais jovem ontem
Muito mais jovem ontem
Eu não sabia que estava faminta até que provei você
Não preciso de borboletas na barriga quando você me dá o zoológico inteiro
Além disso, além disso você faz coisas ao meu corpo
E eu não sabia que estava faminta até que provei você
Além disso, além disso você faz coisas ao meu corpo
E eu não sabia que estava faminta até que provei você
Você, você, yeah até que provei você
Além disso, além disso você faz coisas ao meu corpo
E eu não sabia que estava faminta até que provei você
Quanto mais te conheço
Mais te quero
Algo dentro de mim mudou
Eu estava muito mais jovem ontem

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Plantas como nós

Há cerca de um mês não chove, mas as plantas nos vasos não morrem - há quem as regue. As da terra sim.
E percebo nas pequenas
Coisas
Dolorosas e doloridas
E  também na falta delas
O que sou realmente pra você

Justa falha
A calha ensina
O coração se anima
Com todo e qualquer barulho de água a correr
Assim permaneço viçosa
Morrendo aos poucos
Engasgada com minha própria saliva
Seca de vontade de você


quinta-feira, 23 de novembro de 2017

"O mestre dos brinquedos"

É quando
o mordo mais forte
(Pra deixar minha marca
Pra fazê-lo sangrar)
e você puxa meu cabelo
(Como uma linha invisível)

Xingo sua mãe
Você me cospe

Descarta-me porque
ultrapassei o limite do seu tempo

E diz que mereço o castigo
Que sou
uma menina má
que ela não chega aos meus pés

Empurra-me pra longe
e eu volto
pra você
como seu brinquedo.


Todas as garotas do rei (quando você deixou de me amar)

Todas as garotas do rei são bonitas
Uma não


A menina má.

Infalíveis

Exaustos de cantar vitória
E dançar sobre túmulos/jazigos
Limpar as marcas que a morte imprimiu na vida
E escrever a história sobre lápides de heróis

Outra vez
Desolados por ter vencido
Por tornar aos abraços
Sem nenhum sorriso
Por ter de ficar
Quando se quer partir


sábado, 18 de novembro de 2017

Caio Fernando de Abreu.

“Por trás da palma da mão contra o peito, por trás do pano da camisa entre massas de carne entremeadas de músculos, nervos, gorduras, veias, ossos, o coração batia disparado. Você vai me abandonar – repetiu sem som, a boca movendo-se muito perto do fone – e eu nada posso fazer para impedir. Você é meu único laço, cordão umbilical, ponte entre o aqui de dentro e o lá de fora. Te vejo perdendo-se todos os dias entre essas coisas vivas onde não estou. Tenho medo de, dia após dia, cada vez mais não estar no que você vê. E tanto tempo terá passado, depois, que tudo se tornará cotidiano e a minha ausência não terá nenhuma importância. Serei apenas memória, alívio, enquanto agora sou uma planta carnívora exigindo a cada dia uma gota de sangue para manter-se viva. Você rasga devagar o seu pulso com as unhas para que eu possa beber. Mas um dia será demasiado esforço, excessiva dor, e você esquecerá como se esquece um compromisso sem muita importância. Uma fruta mordida apodrecendo em silêncio no quarto. Tenho uma vontade besta de voltar, às vezes. Mas é uma vontade semelhante à de não ter crescido.Tenho um amor fresco e com gosto de chuva e raios e urgências. Tenho um amor que me veio pronto, assim, água que caiu de repente, nuvem que não passa me escorrem desejos pelo rosto pelo corpo. Um amor susto. um amor raio trovão fazendo barulho, me bagunça e chove em mim todos os dias. Eu prefiro viver a ilusão do quase, quando estou “quase” certa que desistindo naquele momento vou levar comigo uma coisa bonita. Quando eu “quase” tenho certeza que insistir naquilo vai me fazer sofrer, que insistir em algo ou alguém pode não terminar da melhor maneira, que pode não ser do jeito que eu queria que fosse, eu jogo tudo pro alto, sem arrependimentos futuros! Eu prefiro viver com a incerteza de poder ter dado certo, que com a certeza de ter acabado em dor. Talvez loucura, medo, eu diria covardia, loucura quem sabe!” (...) Dá um certo trabalho decodificar todas as emoções contraditórias, confusas, somá-las, diminuí-las e tirar essa síntese numa palavra só, esta: gosto."  (...) Mas finjo de adulto, digo coisas falsamente sábias, faço caras sérias, responsáveis. Engano, mistifico. Disfarço esta sede de ti, meu amor... Mas não me queixo, (…) e a gente esquece sabendo que está esquecendo."


“ e que se possa sonhar, isso é o que conta.”

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

PARADOXOS DIURNOS

E eu me pergunto
como,
Senhores,
às quatro tarde
alguém se importará
com o que vai vestir
a Mariana ou a Marquezine
quando exatamente ao meio-dia
desmaiam de fome
as crianças na capital
do país.


quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Ervas finas

"e se eu dançasse sobre o meu sexo?
se tocasse-o com os dedos como toco-o
com os dedos?
se afundasse meus dedos dos pés na terra úmida
do meu sexo?
pisasse-o como às uvas até florescer, ver
te-lo vinho
vermelho?
diriam aqueles que voam
é uma bruxa essa que tem os pés
plantados na própria selvageria
e eu levantaria as saias e mostra
-ria os dentes
da vagina
afinados e retorcidos como unhas
famintas
encravadas na casa 7
é quente

a casa da loucura
e da fantasia

indecifráveis as digitais
como linhas que costuram os caminhos
pra dentro"

Por Geruza Zelnys

sábado, 11 de novembro de 2017

Leis de Nilton

"Não há crime nem pena sem prévia cominação legal", mas o que é a lei senão a mera combinação volitiva? O que chamam democracia senão a vontade da metade eleita mais um? Quem decide pela supremacia do bem comum? Qual o nosso crime para pena perpétua?


(liberdade condicional)

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Sobre truques e cartas na manga

Então olhe atentamente, nada nesta mão, nada nesta outra. Quando queiras desaparecer sem lógicas explicações. As pessoas tendem a querer deixar uma impressão: marcas, rastros, registros, cicatrizes, vestígios no mundo e nas outras. Querem ser lembradas por suposta importância e obedecidas por um legado, um território reconhecido, por uma prova lícita e cabal de que estiveram ou existiram em algum ponto da trajetória. Mas, pense bem no exato oposto, e se pudesse ser como nunca pôde ter sido? Se pudesse ser como nunca foi? Agora antes como nunca? E se enxugar apagando cada linha, um revés perfeito esmaecido. "O mundo em esquecimento pelo mundo esquecido". Encolher até se tornar o mínimo, último, sumir unidos de forma indolor. 


Como passe de mágica.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Um tom de azul pra cada dia

É Você

Hoje acordei com desejo de beijar-te
Tenho uma sede de acariciar-te
Juntar-me a ti, e não soltar-te
Es tão viciante, é você, é você
Quero contemplar sem desperdiçar o tempo
Desenhar com minhas puras recordações
Em minha mente marcar teus lábios, teus beijos
Está aqui em outro momento
É você, é você, é você
Me encanta ver-te, ter-te, abraçar-te
Quando estou ao seu lado
Tudo que é bom em mim floresce, é você
Esse imã de uma preciosa energia
É tua alma que envia sinais ao meu corpo
Porque sigo pedindo esse teu aroma
Que me convida ao estreito
É você, é você, é você
Temos planos diferentes
Porém você sempre está em minha mente
Pois minhas veias tão sutilmente
Desfrutam tanto do querer-te
É você, é você
É você, é você, é você


"Je t'aime"


"
"

LÂNGUIDAS PROVOCAÇÕES


"C'est l'amour"

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

CINE JOTA


Memórias de fatos inventados

FOGUETE - M. BETHÂNIA

Tantas vezes eu soltei foguete
Imaginando que você já vinha
Ficava cá no meu canto calada
Ouvindo a barulheira
Que a saudade tinha
É como diz João Cabral de Mello Neto
Um galo sozinho não tece uma manhã
Senti na pele a mão do teu afeto
Quando escutei o canto de acauã
A brisa veio feito cana mole
Doce, me roubou um beijo
Flor de querer bem
Tanta lembrança este carinho trouxe
Um beijo vale pelo que contém

Tantas vezes eu soltei foguete
Imaginando que você já vinha
Ficava cá no meu canto calada
Ouvindo a barulheira
Que a saudade tinha
Tirei a renda da naftalina
Forrei cama, cobri mesa
E fiz uma cortina
Varri a casa com vassoura fina
Armei a rede na varanda
Enfeitada com bonina
Você chegou no amiudar do dia
Eu nunca mais senti tanta alegria
Se eu soubesse soltava foguete
Acendia uma fogueira
E enchia o céu de balão
Nosso amor é tão bonito, tão sincero
Feito festa de São João



"De onde você vem?"

Adultos são estranhos demais eles perguntam "o que você faz" e não do que você gosta. Eles querem saber quantos anos tem, se prefere louras ou morenas, qual marca você usa, que carro dirige, qual faculdade fez e ignoram sua cor favorita, a música que você dança, se dorme profundamente nas primeiras horas da noite ou da manhã. Eu não costumo fazer perguntas, ainda criança ouvi dizer que coisas terríveis aconteceram com pessoas que questionavam demais. Alguns descobriram o que queriam. Outros até tornaram-se grandes professores, ora veja.  Então, corrijo-me, eu não ouso é dizê-las em voz altiva, talvez por medo de que alguém finalmente as ouça. Eu silenciosamente as escrevo diluídas no meu próprio suor, com tinta nuance ideal, daquelas no tom da qual fora feita a nova roupa do rei. São soluços furtivos, bilhetes cosidos em seda-alta-costura, tecidos pelo bicho da imaginação, esquecidos pelo correio um dia elegante; as palavras, sim, essas são de baixo calão, rasgam-se, e despem-se à toa. Nua carne, pele jovem e velho vício. Hoje, assim, eu vi você na rua. Eu vi você com ela. As mãos pequenas na sua cintura. Seu beijo adornava o topo da cabeça. Um pequeno pedaço de gelo fino se desprendeu de mim e foi parar raso no fundo dos olhos - tão bonito, salgado e difícil de engolir. Minha armadura óssea às vezes falha ao reclamar alto as duras batalhas. Foi no exato instante em que pensei que talvez eu jamais fosse a mãe da noiva, e eu, mais uma vez preferi não (me) perguntar. 



"Tempo é um tecido invisível em que se pode bordar tudo, uma flor, um pássaro, uma dama, um castelo, um túmulo. Também se pode bordar nada. Nada em cima de invisível é a mais sutil obra deste mundo, e acaso do outro". 

sábado, 4 de novembro de 2017

LÂNGUIDAS PROVOCAÇÕES


Então ele troveja a boca
raivoso céu
testando limites
teimando fronteiras
abrindo novos cursos rios
descobrindo nascentes
inundando escusos terrenos

Sem provisões

Depois de você não houve antes
Esqueceram-se todas as tropas
Os movimentos bélicos
As emboscadas
Os invernos longos
E verões

Havia um riso frouxo
Chamado agora
Que frágil atendia ao seu nome
Qual forte chorava sua partida
Ansiando mais fresco a cada volta


Impresciência

Havia uma razão para ela ser anônima, na verdade existiam milhões de atômicas razões. Uma razão menor, uma pequena força que estanca e supera. Ela repassa folheando rapidamente as que lhe vem à mente procurando exatamente a que lhe escapa, porque era sempre esse enorme contraste de todas as coisas contra o diferencial. Um súbito e enervante vazio versus o seu universo que continha tudo, inclusive o precisar.




Porque pra falar de um si
Imprescindia falar de você
Indissociável extensão de mim
Um eu anacrônico preciso
Precisa reunir todas as letras
Pra enfim conseguir dizer
De onde a gente realmente se conhece
De qual ponto se recomeça
Em que pé ou esquina
Se encontra
Reconhece
Camada sobre camada
De dentro um do outro

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Sombras de poemas não publicáveis (...)

assim
como todos os planetas
acabam em volta
de você

eu
assim
como todos os planetas
acabo em você
de volta

orbitando
frações prontas
a fazer
tudo
novamente
e outra vez


quarta-feira, 25 de outubro de 2017

"Regalos para el corazón"


Ecos na Catedral

Os teus olhos são vitrais 
Que mudam de cor com o céu 
E quando sorriem, iguais... 
E quando sorriem, iguais... 
Quem muda de cor sou eu
Tomara teus olhos vissem 
O amor que trago por ti 
Nem o entardecer me acalma... 
Nem o entardecer me acalma... 
Na ânsia de te ter aqui
E o teu perfume, o incenso 
Os ecos de uma oração 
Misturam-se num esboço imenso 
Afogam-se na solidão
Fui para um templo de pedra 
Escolhi um recanto isolado 
Que me faça esquecer tua voz... 
Esquecer-me da tua voz... 
Que me faça acordar do passado
Escondida em sítio sagrado 
E não me apetece o perdão 
Devo estar enfeitiçada 
Náufrago do coração
E o teu perfume, o incenso 
Os ecos de uma oração 
Misturam-se num esboço imenso 
Afogam-se na solidão
Não sei se perdoo o meu fado 
Não sei se consigo enfim 
Um dia esquecer que teus olhos 
Sorriem, mas não para mim



segunda-feira, 23 de outubro de 2017

O mesmo tanto

Não vou mentir que eu 
Andei te procurando despistar, 
Saudade
Em vão tentando te esquecer
Mas eu passei só pra te ver, Saudade 
Coisa que não posso negar
Inda que eu me esquive desse teu olhar
Vigia

Eu preciso o mesmo 
Tanto de você.


Não é raro, desde sempre, não há biólogo que explique, a garça namoradeira sai às escondidas do luxuoso recinto no parque pra dividir o lixo da vida urbana com o seu malandro urubu - no meio do pitiú.

domingo, 22 de outubro de 2017

Vinicius, o grande poetinha

O Haver

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo:
— Perdoai! — eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe. 

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer balbuciar o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia de simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza 
Diante do cotidiano, ou essa súbita alegria
Ao ouvir na madrugada passos que se perdem sem memória...

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa 
Piedade de sua inútil poesia e sua força inútil.

Resta esse sentimento da infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa tola capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem de comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo esse desejo de servir, essa 
Contemporaneidade com o amanhã dos que não têm ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
E transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade 
De aceitá-la tal como é, e essa visão 
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta essa obstinação em não fugir do labirinto
Na busca desesperada de alguma porta quem sabe inexistente
E essa coragem indizível diante do Grande Medo
E ao mesmo tempo esse terrível medo de renascer dentro da treva.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem história
Resta essa pobreza intrínseca, esse orgulho, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do próprio reino.

Resta essa fidelidade à mulher e ao seu tormento
Esse abandono sem remissão à sua voragem insaciável
Resta esse eterno morrer na cruz de seus braços
E esse eterno ressuscitar para ser recrucificado.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, esse fascínio 
Pelo momento a vir, quando, emocionada
Ela virá me abrir a porta como uma velha amante
Sem saber que é a minha mais nova namorada



Vinicius sempre detestou a alcunha de "poetinha" , o grande poeta que não foi, o desdém dos seus fracassos. Quando em verdade foi maior que a própria poesia, o diminutivo pejorativo era pra que de alguma forma fosse contido num conceito, numa palavra, em si. Perguntado pelo Chico certa vez  sobre como gostaria de reencarnar numa próxima viagem, Vinicius foi categórico, não fazia questão, mas se voltasse queria ser exatamente igual, apenas com o pau um  pouquinho maior. 

sábado, 21 de outubro de 2017

Um tom de azul pra cada dia

Amor da sua cama - Felipe Araújo

E se eu despir minha alma
Será que ela também te excita?
As vezes o amor se disfarça embaixo dos lençóis, reflita

Tenho vontade de ir mais fundo
Mas não tenho certeza se ainda posso
Certeza eu tenho que posso ir além do que virar seus olhos

Além de transpirar seus poros
Além de arrancar sua roupa
Além de apresentar o caminho que você percorre com a sua boca
Mas ó: é só uma ideia boba, é só uma ideinha boba

Tudo bem
Se é pra você me usar o que que tem?
Só de tá com você fico bem
Posso não ser o amor da sua vida

Tudo bem 
Se é pra você me usar o que que tem? 
Tanto faz se você não me ama 
Posso não ser o amor da sua vida 
Mas eu sou o amor da sua cama 

Tudo bem 
Tudo bem

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

PEQUENAS DOSES DE REALIDADE

Hasanlu - o beijo de 2800 anos
A ti
não parece
demasiadamente
ordinária
a generalidade da morte
ante à cova rasa da vida
para encobrir
sentimentos
profundos?


-Hoje liguei pra você. Sem perceber fiz um pedido.
Mas ninguém atendeu.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

A pequena Dorothy e o grande Mágico de Oz


"Nesta vida,
pode-se aprender três coisas de uma criança:
estar sempre alegre,
nunca ficar inativo
e chorar com força por tudo o que se quer."



Um tom de azul pra cada dia


Viagem perdida

Você confia à fumaça
a ida da memória má
você confia ao copo
o esquecimento do que sempre será tormento

você confia à leitura
a distração
mas as palavras são apenas para os olhos
a atenção

você quer ir embora de você
como se você não lhe fosse
todos os destinos possíveis

a ida é sempre volta
a volta, sempre ida
é melhor que fique
é viagem perdida

aqui, na gente
ficar em casa é viajar
aqui e sempre
é lar, é lá

você quer ir embora de você
como se você não lhe fosse
todos os destinos possíveis

você não sabe o que é se perder
e não encontra uma saída
para um destino possível

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

ISMAEL NERY, meus amigos

POEMA (1931)
Estou com o olho no telescópio que está dentro da barriga aberta da cúpula. Observo a lua, a filha da lua, a neta da lua, toda a família da lua, menos o marido dela. Eu gosto da cor da lua mas acho incompleta a sua forma. A lua é uma mulher gorda, que parece magra, magríssima, abstrata. Eu gosto das mulheres abstratas que vêm ao mundo sem pai nem mãe nem irmãos, e que não nasceram em nenhum país nem tão pouco no mar. Gosto mais de ter uma mulher em pé na minha cabeça do que pendurada em meu pescoço. O meu pescoço, às vezes, não agüenta bem o peso da minha cabeça, porque ela está cheia de coisas que quase sempre eu não gosto. Tenho uma formidável atração pelo que detesto, inclusive eu mesmo. Ismael Nery: nunca consegui ouvir nem dizer este nome sem sentir uma comoção – mas não sei bem que espécie de comoção eu sinto ouvindo ou dizendo este nome. Há nomes também que me emocionam e me obrigam a inventar um físico para eles. Nunca vi ninguém que escapasse completamente a uma crítica minha – nem eu próprio. Terei que captar a minha sinceridade em alguém que não seja eu, e até muito pelo contrário – que seja bem diferente de mim. Preferiria olhar as mulheres de cabeça para baixo e suspenso por um fio de aço, do que de outra maneira qualquer. A desorganização das coisas não me agrada, também como a organização .Gostaria de ter um criado moral para arrumar o meu cérebro e consolar nas minhas ausências aqueles que moram comigo, de mim e para mim. O meu maior instinto é o da paternidade que aplico a tudo e a todos. A minha maior vontade era ser a sombra de tudo e de todos, afim de nascer e morrer com tudo e com todos e em todos os tempos. Não haverá um homem que me determine moral e fisicamente? Sou o gérmen de um Deus, toda a gente o é também.
...
A UMA MULHER (1932)
Eu queria ser o ar que te envolve
Desde o teu nascimento.
Eu queria ser o teu vestido que te esconde dos outros.
Eu queria ser tua camisa que te conhece em segredo,
Eu queria ser o leito onde te abandonas ao teu próprio frio.
Eu queria ser teu filho e teu amante.
Eu queria que fosses eu.
Eu queria ser teu amor e teu Deus.
Eu queria não existir.
...
CONFISSÃO (1933)
Não quero ser Deus por orgulho.
Eu tenho esta grande diferença de Satã.
Quero ser Deus por necessidade, por vocação.
Não me conformo nem com o espaço nem com o tempo,
Nem com o limite de coisa alguma.
Tenho fome e sede de tudo,
Implacável.
Crescente.
Talvez seja esta a minha diferença de Deus.
Que tem fome e sede de mim,
Implacável,
Crescente,
Eterna
— De mim que me desprezo e me acredito um nada.
...

INÉRCIA
O poeta quer se locomover.
Para que bonde, navio, avião e zeppelin
Se já te encontrei e estás comigo?!
Para que,
Se tu és para mim o universo inteiro?!
Para que,
Se estamos juntos da cabeça aos pés?!

Cine Jota


domingo, 8 de outubro de 2017

LÂNGUIDAS PROVOCAÇÕES



(Quando vão se cruzar?)

Lábios

Apenas o seu amor
Apenas a sua sombra
Apenas a sua voz
E minha alma
Apenas o seu amor
Apenas a sua sombra
Apenas a sua voz
E minha alma
Apenas seus lábios
[Romy Madley Croft]
Meu nome em seus lábios
Você está vestindo meus pulmões
Afogado em oxigênio
Agora você definiu o cenário
Bêbada em intimidade
Me dando um banho
[Romy Madley Croft]
Ooh
Eu não quero saber o caminho
Ooh
Eu não quero saber o caminho
[Trio medieval, Romy Madley Croft + Oliver Sim]
Apenas o seu amor
Eu só quero tudo
Apenas a sua sombra
Apenas a sua voz
Eu só quero tudo
E minha alma
Na minha cabeça, nas minhas veias
Na maneira como você dá e recebe
Da maneira que você pesa
No meu corpo, no meu cérebro
[Oliver Sim]
A química está destruindo um caso de duas, três vezes
Não há garantias
Trabalhando com as estações, pressionado contra o teto
Empurrando para baixo em mim
[Oliver Sim]
Ooh
Eu não quero saber o caminho
Ooh
Eu não quero saber o caminho
[Trio medieval, Romy Madley Croft + Oliver Sim]
Apenas o seu amor
Eu só quero tudo
Apenas a sua sombra
Apenas a sua voz
Eu só quero tudo
E minha alma
Na minha cabeça, nas minhas veias
Na maneira como você dar e receber
Da maneira que você pesa
No meu corpo, no meu cérebro
[Trio medieval, Oliver Sim]
Apenas seu pescoço
Apenas seus olhos
Apenas seu desejo
Apenas o seu amor e minha alma
Apenas o seu amor
Apenas a sua sombra
Apenas a sua voz
E minha alma
Apenas o seu amor
Apenas a sua sombra
Apenas a sua voz
E minha alma
Eu não quero saber o caminho 

sábado, 7 de outubro de 2017

Memórias de fatos inventados

De corpo e alma

A minh'alma inquieta descansa
Enquanto o corpo se agita
Quando o corpo enfim perece
A alma que o visita
E vem a vontade louca
De ter você por completo
Mesmo sabendo
Que eu sempre vou esperar por você
Não como a terra seca
Espera pela chuva fina
(Com candura)
Mas como a morte certa
Espera pela vida


quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Paradoxos Noturnos


"A ocasião faz o furto. O ladrão nasce feito"

O poeta de palavras de baixo calão

O silêncio é dos inocentes. A vida tem um barulho ensurdecedor. 




A morte descansa seus pés gelados em caprichosos calçados silenciosos. Por isso- as palavras - ele as fustiga, rasga, desfigura, as gasta, mantêm e tortura mentalmente, dia após dia, para que em todos os fins, durante suas noites de expiação vingativa e loucura, entre sujos suspiros, delírios e múrmuros, possa deitar-se sobre elas. Secretamente violá-las. Assim, as manterá cativas dentro de si, reféns da luxúria e nudez dos sonhos que esconde sob as penas vestigiais do seu travesseiro, escravas da concupiscência amoral dos sagrados segredos que rivalizam o espaço debaixo da sua cama. Amordaçadas consigo, amarradas a mim.